Cântiga ultrapassada
Convencido de que o fascismo estava morto e enterrado desde ´45, resolvi ir ao cinema. Momentos antes de entrar na sala de projecção, assisto ao caloroso debate entre uma sessentona enraivecida, com uma garrafa na mão, e um empregado do cinema, um rapazote encabulado.
Ele: Sinto muito senhora, mas como diz o aviso junto à bilheteria, não é permitida a entrada de bebidas ou alimentos adquiridos fora do recinto
Ela: Ora essa, não diga um desparate desses! Eu faço como quiser!
Ele: Minha senhora, eu tenho ordem de não permitir a sua entrada com esta garrafa
Ela: Pare com esse comportamento fascista! Você sabe que é um fascista?
Ele: Senhora, eu não sei nada dessas coisas, apenas sei que cumpro a minha função e a senhora de certeza leu o regulamento da casa antes de comprar a sua entrada... E veio aqui por vontade própria e...
Ela: Isso é fascismo! Vá chamar o gerente! Só falo com ele! Fascismo! São todos fascistas!
Confesso que não fiquei para o desenlace desta magistral lição de Ciência Política, amavelmente proferida pela soixante-huitarde ressentida e ao gosto da esquerdalhada cá do burgo, excitada pela lembrança dos trinta anos do golpe que, manu militari, deu cabo do terrorismo e da guerrilha.
O episódio, entretanto, trouxe recordações da abrilada ´74, após a qual, Camões, o Infante D. Henrique e o Fado eram fascistas... Penso até que o pastel de Belém também o foi... De facto o bricolage semântico é formidável: O péssimo aluno não recebe 19 valores? O professor é fascista. Peço a um funcionário que chegue ao trabalho à hora estipulada? Sou fascista. Alguém ousa propor tolerância zero para com a delinquência? Essa pessoa só pode ser fascista. Não à adopção de crianças por cazalinhos gay? Comportamento fascista, de certeza.
Edificante. Dialecticamente, com isto fico a saber que os comunistas acariciam-nos a cabeça e fazem todas as nossas vontades. Que imensa quantidade de enfants gâtés deve ter existido do outro lado de cortina de ferro...
3 Comments:
Eh, eh, eh!
Ah! A insustentável pesadumbre dos factos simples do nosso viver...
Era essa a noção de 'fascista' segundo o brilhantíssimo Pereira de Moura, lunático que chegou a exercer funções governativas em 75.
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