terça-feira, janeiro 03, 2006

Memória hemiplégica



Nestor – “el Pinguino” – Kirchner é presidente argentino e, dizem alguns especialistas, padece de agudíssima montonerite. A terrível moléstia pode atacar indivíduos que nos anos setenta fizeram parte da organização terrorista de esquerda Montoneros, mas que desempenharam funções, digamos, burocráticas. Diante de tantos tiros, bombas, sequestros e matanças várias, tudo devidamente glamourizado pelos manipuladores planetários de costume, o “montonero de secretária”, como diz-se cá no burgo, sente-se frustradíssimo por não ter tido a (1) oportunidade ou (2) a capacidade ou (3) a coragem de arriscar o couro, e passa a sentir uma compulsão obsessiva de compensar hoje com fanfarronadas escandalosas e bravatas peçonhentas as lacunitas curriculares de antanho. Além desta patética reacção psicológica compensatória a montonerite também traz a reboque a hemiplegia das funções de memória: o infectado esquece por completo que os jovens idealistas dos anos 60 e 70, docemente transformados em máquinas de matar (a “selectiva e fria máquina de matar” expressamente receitada pelo terno "Che" Guevara), saíram a encharcar de sangue as ruas da Argentina muitos anos antes de que sobre eles se abatesse uma mão de ferro repressora. Para Kirchner e a sua troupe de esquerda melindrada a rapaziada terrorista e guerrilheira andava em casa a tomar chá e a comer docinhos (i.e., mate e alfajores de dulce de leche) com as respectivas avós quando, num repente, e por menos do que um dá cá aquela palha, os malvadérrimos militares decidiram persegui-los e supliciá-los tal qual Carvalho e Melo com os Távoras em chão salgado. O tema é largo e escaldante e a ele voltaremos com mais detalhes. Trata-se de um dos maiores embustes de todos os tempos, a sombra do qual, e à imagem de outras charlatanices que andam para aí, muitíssima gente obtêm dinheiro à fartazana, cargos importantes, tribunas permanentes, estrelato, privilégios de toda espécie, etc. Para aqueles que desejam informar-se sobre a história completa, não a versão hemiplégica, desta triste etapa da vida Argentina, a não perder é o livro do jovem advogado Nicolás Márquez, La otra parte de la Verdad, edição do autor, Buenos Aires, 2004, ISBN 9874382678. A despeito da contínua falsificação do passado – especialidade na qual os abrilinos ´74 possuem pós-doutoramento cum laude – contra factos não há argumentos e a verdade virá sempre ao de cima, na Argentina e em Portugal, nem que seja na véspera do juízo final.